Meu Eu Lírico

Coisas sobre as quais eu sempre quis escrever, ou conversar, ou simplesmente meditar. Esse é o fim da ociosidade dos meus leitores imaginários...

Àgata voltava da casa da mãe, mas um final de semana misto de aconchego, melancolia e umas gotas de impaciência.
Estava no banco da frente do ônibus quando eles entraram. Aqueles humanos, sujos, mal cuidados, doentes. Procuraram assentos vazios como uma fera procura uma presa. Nos olhos arregalados ela viu uma possível disposição de até matar por um assento. Por sorte haviam lugares suficientes para todos eles. Uma pessoa mais velha, provavelmente a responsável por eles, os tratava como crianças e gritava, pedindo silêncio
E então, o silêncio.
Àgata sentiu medo e ficou aliviada por nao estar sentada ao lado deles.
Dez minutos depois, desceram.
Aquelas criaturas agora desciam educadamente do ônibus, como se cada passo fosse um carinho nas escadas imundas.
Desceram todos.
Quando o ônibus partiu, ela olhou pra trás e percebeu que um deles a sorria. Com aqueles dentes tortos, amarelados.
Acenava e sorria.
Ela sorriu de volta, e, paralizada, não acenou.
Foi um sorriso tão sincero que Ágata nunca mais o esqueceu.
Filosofou, sozinha, sobre os instintos humanos o resto inteiro da viagem.

(16/06/09)

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